É interessante que, na Igreja, dinheiro parece ser um tabu. A gente não gosta de falar. Trata–se de um assunto de alta sensibilidade. Imaginando quais poderiam ser os motivos, penso que são diversos. Prevalece ainda a ideia que fé e dinheiro são coisas que não se misturam. Além disso, as
pessoas procuram economizar, segurar os gastos e cortar as despesas. Onde o corte menos dói é na contribuição à Igreja. Para muitos, se trata de algo como um supérfluo. Cabe à Comunidade mostrar que isto é um trágico engano, ou seja, é necessário trabalhar o tema dinheiro na Comunidade.
É verdade que o ‘lucro’, ou seja, o proveito não seja visível de imediato. É como na educação: os frutos demoram a aparecer e não são diretamente visíveis. Assim acontece também com a Comunidade. No entanto, a sua falta vai resultar em doloroso empobrecimento das pessoas. Fé é um assunto por demais precioso para dele se descuidar e não merecer investimento. A IECLB precisa de dinheiro para levar adiante a divulgação do Evangelho e espalhar o espírito evangélico-luterano entre o povo. Um mundo sem fé, amor e esperança se torna frio, violento, brutal. Então, convém sepultar o estranho constrangimento frente a assuntos financeiros. Dinheiro é nada sujo quando colocado a serviço da causa boa.
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Fé é um assunto por demais precioso para dele se descuidar e não merecer investimento |
Assim como a contribuição não é pagamento, assim ela também não deve ser confundida com uma aplicação financeira. Reside aí o grave equívoco das assim chamadas ‘religiões da prosperidade’. Estas descobriram que, com a fé, se pode fazer bom negócio. Nestas Igrejas, dinheiro é o que não falta. Transformaram a Igreja de Jesus Cristo em uma bolsa de valores, na qual se investe para ganhar.
Deus, tal o raciocínio, não fica devendo a quem investe dinheiro na sua Igreja. Vai retribuir com bênçãos em termos de sucesso, cura, ascensão social, prosperidade. Aliás, isto se você crê. Caso Deus o despedir de mãos vazias, o culpado é você, porque não creu o suficiente. Este é o aspecto diabólico nessa história, pois pode criar traumas nas pessoas, por culpá-las, em caso de insucesso, de falta de fé. Trata-se de uma modalidade de explorar a ingenuidade do povo. Contribuição é outra coisa! Pelas bênçãos de Deus, podemos e devemos rogar, mas jamais as podemos comprar.
Quanto à terceira pergunta, ou seja, com relação à prática da contribuição, inicio dizendo que ela deve ser proporcional. É este o princípio bíblico. Permito-me citar uma palavra de Jesus. Ele disse: mas a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e aquele a quem muito se confi a, muito mais lhe pedirão. Assim lemos em Lucas 12.48. As responsabilidades se graduam de acordo com as capacidades, os dons, as potencialidades. Estas não são iguais. Entre os membros da IECLB, existem os que estão melhor e os que estão pior situados, por isso a contribuição não pode ser igual para todos.
Eu sei que o princípio da proporcionalidade sofre contestação nas Paróquias. Alega-se outro princípio, a saber, o da igualdade de direitos e deveres. Ora, este princípio passa ao largo da realidade social no nosso país, no qual prevalece a desigualdade. Somente proporcionalidade fará jus à situação. Também outras desigualdades deverão ser consideradas. Como já mencionei, os carismas dos membros são diferentes, por isso são exortados a se servirem mutuamente. Isto de acordo com a ‘lei de Cristo’, que, conforme o apóstolo Paulo, consiste em carregarmos as cargas uns dos outros (Gl 6.2). A Comunidade cristã deveria ser um exemplo de tal ‘fraternidade’. Aliás, nem se trata de fraternidade. Trata-se simplesmente de uma questão de justiça.
Quero sublinhar que proporcionalidade não deve ser confundida com ‘percentualidade’. Para quem ganha um salário mínimo, 5% da sua renda pesa bem mais no orçamento familiar do que no caso de uma renda de dez salários. Na verdade, é extremamente difícil, talvez impossível, fixar o significado de proporcionalidade em números exatos. Ela exige boa dose de espontaneidade a critério do contribuinte. O que a Paróquia deveria fazer é definir a contribuição média dos seus membros para, então, apelar aos melhor situados para contribuírem com mais e abrir a possibilidade de contribuírem com menos se os recursos ficarem escassos.
Ninguém é tão pobre ao ponto de não poder contribuir

Apenas apostar na espontaneidade dos membros na hora de estabelecer o seu valor de contribuição não funciona. Os membros precisam de orientação e motivação. Devem ser dadas diretrizes. Existem modelos para tanto e que têm funcionado a contento. Entretanto, volto a dizer que a isenção de contribuição deve ser evitada. Ninguém é tão pobre ao ponto de não poder contribuir com absolutamente nada.
Com a mesma determinação se deve cuidar para que não ocorra a exclusão de membros por motivos de pobreza. Muitas vezes, eles se autoexcluem, porque consideram pobreza uma vergonha. Ora, o membro com menos recursos é tão valioso quanto aquele com muitos. Pobreza pode ter motivos alheios à nossa vontade e nem sempre resulta em culpa. Mesmo se esse for o caso, não há porque abandonar a Comunidade. Certamente, há como resolver a pergunta pela contribuição, que, aliás, é uma questão também de dignidade.
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Os membros precisam de orientação e motivação |
O que fazer se um membro atrasar a contribuição? Sei que esse é um dos problemas candentes. Ora, em princípio, há que se distinguir entre os que não podem e os que não querem contribuir. Penso que uma conversa fraternal vai resolver muito. Não basta ‘baixar uma lei’. É preciso conversar. Além disso, é importante haver certa flexibilidade na procura por soluções. Estas não devem exigir o impossível. A que se deve o atraso na contribuição? Creio que, com um pouco de boa vontade, a maioria dos casos poderá ser resolvida.
* Palestra proferida pelo P. Dr. Dr. h.c. Gott fried Brakemeier, em março de 2013, no Sínodo Nordeste Gaúcho
P. Dr. Dr. h.c. Gott fried Brakemeier, autor de vários livros e artigos em revistas nacionais e internacionais, estudou Teologia no Brasil e na Alemanha, doutorou-se na área do Novo Testamento, em Gött ingen, na Alemanha, foi Professor na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo/RS, exerceu a Presidência da IECLB, a Presidência do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e a Presidência da Federação Luterana Mundial (FLM), voltando à docência na Faculdades EST e aposentando-se em 2002