Uma das dimensões fundamentais da existência cristã é viver em Comunidade, dificuldade para muitos que se confessam cristãos. A fé cristã e o viver em Comunidade são inseparáveis! Arrisco a afirmar que a verdadeira fé cristã só é possível se estou vinculado às atividades da Comunidade.
Como cristãos, a relação comunitária se dá de muitas formas. Cada seguidor de Cristo poderá priorizar o que for inerente ao seu dom e talento ou mesmo ao ‘seu gosto’. A ausência da vida comunitária é sinal da inexistência de fé verdadeira. Todos os que se dizem cristãos deveriam saber: o Culto é uma das participações mais importantes da vida comunitária, pois ali a Palavra e os Sacramentos podem ser acolhidos e compartilhados, como também os hinos de louvor, que animam para a caminhada a cada novo dia.
Se afirmarmos que Deus sustenta a Comunidade, também concluímos que Ele é o seu Criador. Lutero, em sua explicação do terceiro artigo do Credo Apóstolo, nós dá a sua compreensão do que é ser cristão e o que é a Comunidade (Igreja): ‘Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele, mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja…’.
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Uma das dimensões fundamentais da existência cristã é viver em Comunidade, pois a fé cristã e o viver em Comunidade são inseparáveis! |
Cabe a todos os integrantes de uma Comunidade a responsabilidade de mantê-la em todas as suas atividades. Algumas ‘tarefas’ dos membros são absolutamente indispensáveis, pois é da natureza da fé cristã ser missionária/diacônica. Portanto, ajudar outras pessoas a terem um encontro significativo com Jesus faz parte da missão de cada cristão. Foi exatamente isto que aconteceu com André quando relata o Evangelho de João 1.40-42a: Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido o testemunho de João [Batista] e seguido Jesus. Ele achou primeiro seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo), e o levou a Jesus… esta é a dinâmica da vida cristã, que Jesus seja conhecido e acolhido, pois ele nos acolhe primeiro. Ele sempre dá o passo primeiro, incondicionalmente. Ele declara a nossa pertença a ele no Batismo.
Cabe uma ação incisiva das Comunidades para que as necessidades fundamentais das pessoas sejam supridas, de modo que a vida digna seja possível. Precisamos ser Comunidades solidárias. Para que tudo isto seja possível, necessitamos da colaboração e da contribuição de todos os membros e uma gestão eficaz dos Presbitérios e de todas as lideranças da Comunidade. Esta é a Comunidade que Deus espera que sejamos e é a Comunidade que Ele sustenta ao longo da história.
Faço a oração do apóstolo Paulo dirigida à Comunidade de Filipos: Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa cooperação no Evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá- la até ao Dia de Cristo Jesus.
Para refletir, leia João 1.35-42
P . Hardi Brandenburg | Ministro na Comunidade da Ascensão, em Novo Hamburgo/RS
Testemunho em um mundo que fragmenta
Ao fixar o olhar na Rosa de Lutero estilizada que nos acompanha em 2017, no Tema do Ano da IECLB, recebemos de pronto uma ‘cutucada’: qual é o nosso testemunho enquanto Comunidade cristã em meio a um mundo que vende a salvação, a natureza e as pessoas?
Comunidade cristã é aquela na qual você, eu, cada qual se insere a fim de expressar, em testemunho e ação, a essência do Evangelho de Jesus Cristo. Rememorando as primeiras Comunidades cristãs, trazemos para nós que elas entenderam profundamente o significado da proposta de Jesus a ponto de iniciar uma nova experiência de convivência baseada na misericórdia e na justiça. Comunidade cristã é um coletivo de pessoas em que a inclusão, a oração e a partilha são expressão concreta da proposta do Reino de Deus, inaugurado por Jesus em meio à realidade do mundo.
Confrontar, portanto, a nossa forma de ser Comunidade com a proposta das Comunidades primitivas é importante, pois nos ajudará a sair de uma zona de conforto na qual caímos quando somos envolvidos (e cooptados) pelo mundo marcado pelo mercado que minimiza as pessoas, a natureza e, em consequência, faz da fé uma ferramenta individualista, sem compromisso misericordioso com o outro, com a outra, especificamente com quem é diferente.
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Comunidade cristã é um coletivo de pessoas em que a inclusão, a oração e a partilha são expressão concreta da proposta do Reino de Deus. |
Corremos o risco de sermos Comunidades de consumo, que meramente respondem às necessidades individuais e momentâneas das pessoas dentro de uma estrutura social que fragmenta e segrega, para que não haja vínculo, comunhão, inclusão, (com)paixão. Assim são encobertos os reais problemas e deixados de lado os devidos encaminhamentos para soluções verdadeiras. A Comunidade cristã é uma comunidade da vida e não do mercado. É esta a nossa herança a partir do Evangelho.
Ao assumir essa herança, cria-se tensão com o espaço (mundo) no qual a Comunidade existe. A partir de Jesus, o Cristo Salvador, que denuncia a idolatria das formas socioculturais, religiosas e econômicas vigentes no seu tempo, nos é dada a chave para sermos, de fato, Comunidade que testemunha e age a partir do Evangelho, Comunidade que revela que a compreensão individualista da vida e da salvação, a aceitação passiva e acrítica da proposta do mercado, o culto à técnica, a banalização da violência, a mercantilização do sexo e dos sentimentos mais profundos, a agressão à natureza, o desprezo pela dignidade da vida humana e a discriminação de quem é diferente não podem, definitivamente, fazer parte de uma proposta comunitária que se diz cristã.
Voltando à Rosa de Lutero que nos acompanha: ela mantém em destaque a centralidade da cruz, que nos liberta a fim de sermos Comunidade que repensa o seu testemunho e, também, a sua ação, para que não fiquemos na mesmice, mas nos reformemos constantemente a fim de (re)descobrir a nossa condição de Igreja de Jesus Cristo no espaço em que estamos.
Para refletir, leia Mateus 25.36-41
P. Cristov Kayser | Ministro na Paróquia de Ibirama/SC