A maioria das pessoas gosta de receber presentes. Quase sempre, os presentes estão relacionados a datas especiais, como aniversários, bodas, casamentos, despedidas, entre outras ocasiões. Eles podem ser grandes, pequenos, úteis, únicos, surpreendentes, sensacionais… Enfim, a sensação de receber algo infla o coração de emoção, alegria e gratidão.
Compartilho uma experiência ocorrida há muitos anos e que me marcou. O meu marido, sem que houvesse uma data especial, no meio da semana, chegou em casa com um buquê de flores. Fiquei surpresa, desconfiada e fui logo perguntando: ‘Aconteceu alguma coisa?’. A resposta foi: ‘Simplesmente, eu te amo’. Acolhi com alegria as flores, mas, principalmente, a demonstração e o gesto de afeto, amor e cuidado.
Comparo esta experiência com o presente da fé em Jesus, que recebemos de Deus em uma ocasião toda especial, o Batismo. Esse presente gratuito vem acompanhado da promessa da nova vida, do Espírito Santo, da acolhida e da integração na Comunidade cristã e da declaração de que somos filhos e filhas de Deus. É um presente que nos reveste de uma nova vida, de um novo jeito de viver e nos empodera da esperança da salvação mediante a fé em Jesus. Você sabe por que recebemos este presente de Deus? Simplesmente, porque Deus nos ama e quer nos ver felizes, alegres, em paz e em comunhão. As Sagradas Escrituras afirmam: Pois, pela graça de Deus, vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus (Ef 2.8).
É como se recebêssemos de presente algo para ser usado todos os dias e que nos lembra quem nos deu e qual a sua motivação ao oferecer o presente, emergindo, assim, o sentimento de gratidão, da alegria e da valorização. Como um abraço compartilhado por duas pessoas, a fé em Jesus é o abraço de Deus correspondido pelo nosso abraço – um gesto encontrando outro gesto, braços entrelaçados que se comprometem mutuamente. Assim, a fé em Jesus se torna, simultaneamente, presente, ação, dádiva de Deus e a nossa resposta, ação mediante este presente.
Nessa dinâmica do abraço, a fé em Jesus precisa ser alimentada e fortalecida, no dia a dia, com o calor da vida. É da vida comunitária que a fé em Jesus brota, se abastece e se fortalece. Celebrações, cultos, estudos bíblicos, os mais diferentes grupos comunitários, são espaços para o exercício do abraço, da espiritualidade, do aprendizado e da vivência cristã. Esses espaços são vitais para manter um coração apaixonado pela missão de Deus, mas também para promover uma caminhada para fora dos muros dos templos, onde a vida clama por socorro, cuidado e amor.
O apóstolo Paulo afirma: a fé vem por ouvir a mensagem que vem por meio da pregação a respeito de Cristo (Rm 10.17). Nesse sentido, podemos afirmar que a fé em Jesus nasce, cresce e se fortalece no encontro com a Palavra de Deus e com os Sacramentos no seio da Comunidade. Essa ‘Palavra’ fala na missão de Jesus, que, de uma forma prática e visível, revela a graça, o amor e a vontade de Deus para com toda a Criação.
O convite vamos para perto de Jesus (Hb 13.13) nos remete a viver a dinâmica da fé, do abraço de Deus, reconhecendo, crendo e se comprometendo com os valores e ensinamentos evangélicos que Jesus nos deixou. É sair do comodismo, da fé proclamada para a fé compromissada, abraçada à cruz. Talvez você concorde comigo que é fácil dizer ‘tenho fé’, ‘creio em Deus’, ‘me identifico com os valores cristãos’ porém, é difícil assumir, na prática, a cruz que vem do compromisso evangélico com as pessoas exploradas, marginalizadas, com necessidades específicas e carentes de afeto, amor, paz e perdão.
O testemunho bíblico afirma: assim as Igrejas eram fortalecidas na fé e cresciam em número a cada dia (At 16.5). O crescimento da Igreja tem sido um assunto muito discutido no nosso meio, bem como a responsabilidade missionária da Igreja (Plano de Ação Missionária da IECLB – PAMI). Nesse sentido, a pergunta é pelo testemunho prático e pela nossa coragem de dar esse testemunho evangélico por todos os cantos do mundo (Mt 28), levando outras pessoas a crerem em Jesus como o nosso único Senhor e Salvador, do qual, pela fé, temos a esperança da salvação e semeamos os sinais do Reino. Eis aí o desafio que brota da fé cristã.
O compromisso que nasce da fé: do abraço ao braço
Não é novidade que a incoerência entre a fé e a prática cristã colabora para a promoção da miséria social, cultural, econômica e espiritual. Com tantas pessoas cristãs no Brasil, era de se esperar um país mais justo socialmente. Como explicamos um país considerado cristão com tanta violência, exploração, desrespeito ao direito da saúde básica e da educação com qualidade? Como explicar a miséria, a política que se faz com a politicagem, a falta de diálogo e de respeito com o diferente?

Não há verdadeira fé em Jesus se não vem acompanhada pelo compromisso que dela emerge: Não é toda pessoa que me chama de ‘Senhor, Senhor’ que entrará no Reino dos Céus, mas somente quem faz a vontade do meu Pai, que está no céu (Mt 7.21). A fé em Jesus anda de braços dados com o testemunho prático dos ensinamentos de Cristo. É nessa dinâmica que as sementes do Reino vão sendo semeadas e fazem florescer a vontade de Deus. Estas sementes, por sua vez, espalham novas sementes de vida abundante. Se a vida abundante não está brotando com força em nosso meio, então é tempo de repensar o manejo das sementes.
É tempo
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A mensagem pregada ensina o processo de cultivar as sementes do Reino que valorizam a vida, a solidariedade e o compromisso de cuidado mútuo com toda a Criação de Deus. É no encontro com o mundo que encontramos Jesus. É lá que podemos estender os braços, favorecer o diálogo e a paz, encontrar sentido de vida e oferecer flores gratuitamente, tais quais as que já recebemos. É lá que diariamente compartilhamos presentes que falam no amor, na misericórdia e na graça de Deus. É no encontro do abraço e do braço que surgem viDas em comunhão e vida em abundância (Jo 10.10).

Pa. Dione Carla Baldus, graduada em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, é pós-graduada em Aconselhamento Pastoral e Psicologia. Atua como Pastora na Paróquia em Maripá/PR e como Assessora de Formação em Planejamento Estratégico, ambos no Sínodo Rio Paraná