Há poucos dias, quando entrava em sala de aula, logo após o primeiro turno das Eleições no Brasil, encontrei estudantes falando alto, tentando argumentar a favor ou contra determinado candidato. Tive de lembrar o grupo de estudantes que estávamos em uma aula de Língua Portuguesa e que sabíamos que não convenceríamos as outras pessoas por falar mais alto, mas, sim, com bons argumentos. Acalmados os ânimos, abri um espaço para que expusessem os pensamentos e mostrassem, então, a razão do seu ponto de vista.
Cada estudante procurou mostrar o que pensava e por qual razão votaria neste ou naquele candidato. De alguma maneira, o que foi discutido agregou conhecimentos às pessoas presentes. Ao término da discussão, procurei amarrar o assunto, falando sobre um texto do Teólogo Leonardo Boff, que fora lido nas primeiras aulas deste ano ‘Todo ponto de vista é a vista de um ponto’. Pedi que eles lembrassem sobre o que havíamos discutido naquela época. Em seguida, expus sobre a importância de saber ouvir e tentar entender a história de cada um e cada uma para compreender as razões pelas quais alguém se posiciona de tal modo.
Aí reside um aspecto primordial da e na convivência humana: reconhecer que cada pessoa vai se posicionar de acordo com aquilo que os seus olhos viram, os seus ouvidos ouviram e onde os seus pés pisaram. Portanto, com quem essa pessoa conviveu, que histórias foram partilhadas, que leitura de mundo essas pessoas passaram para ela. Enfim, como se deu a convivência familiar e social.
Quando conseguirmos chegar nesse nível de entendimento, procurando perceber que o posicionamento da pessoa é decorrente da sua história de vida, talvez fôssemos menos orgulhosos e orgulhosas e conseguíssemos, por meio do amor, nos aproximar mais que nos afastar. Assim, permitiríamos que as pessoas pudessem interagir de modo mais fraterno, tendo contato com outros pensamentos e, quem sabe, ver o mundo com outros olhos e enxergar a vida de uma perspectiva que ainda não haviam percebido. O que ocorreria com as pessoas participantes dessa interação, independente de qual seja a ‘sua verdade’?
Ter abertura para ouvir diferentes pontos de vista possibilita que haja enriquecimento daqueles que participam da interação. Isso pode resultar em novas leituras e novos posicionamentos, afinal o modo de ver e pronunciar o mundo não nos é dado de uma só vez, mas construído diariamente no agregar das diferenças.
Tenham uma mesma atitude uns para com os outros. Não sejam orgulhosos, […]. Não sejam sábios aos seus próprios olhos (Rm 12.16).