Origem e finalidade dos Dez Mandamentos hoje
Os Dez Mandamentos, na origem, pretendem orientar certas pessoas na antiga sociedade de Israel. São homens adultos, possuidores de mulheres, casas, campos, servos e animais, a julgar pelos dois últimos Mandamentos. Na relação do que não se deve cobiçar, incluem-se bens, pessoas e animais, considerados propriedade de homens livres naquela época. Campos e animais indicam que são Agricultores. A menção a servos aponta para a condição de homens livres, cuja sociedade admite a existência de escravos. Ao proibirem de cobiçar a mulher do próximo, os Mandamentos mostram uma sociedade que vê as esposas como propriedade dos seus maridos.
Essa orientação tem duas direções. Uma relaciona-se a Deus e compreende os três primeiros Mandamentos. A outra fala no convívio entre essas pessoas, indicado nos outros sete Mandamentos. O terceiro Mandamento pode ter dupla relação: santificar o dia de descanso é tanto dar tempo para Deus, prestando-lhe culto, quanto dar tempo para si mesmo, descansando depois de seis dias de trabalho.
Jesus resume os Mandamentos em apenas dois: amar a Deus e amar ao próximo.
Sim, os Mandamentos fazem sentido para nós, hoje. Porém, não se pode mais pensar em escravidão e dominação do homem sobre a mulher. Em Cristo, ´não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher;
porque todos vós sois um em Cristo Jesus´ (Gl 3.28). Isto muda o sentido dos dois últimos Mandamentos. Ninguém deve cobiçar qualquer coisa que seja de outro, seja homem ou mulher, adulto ou criança.
Os Mandamentos fazem, sim, sentido ainda hoje. Lutero os via com um Beichtspiegel, um espelho para a confissão. Em uma revisão de vida diante de Deus, os Dez Mandamentos são espelho no qual podemos ver os nossos erros e o que precisamos confessar para que Ele nos perdoe.
A confissão deve refletir sobre cada Mandamento: matei, roubei, deixei de honrar e glorificar a Deus? Sim, é bom tomar o Catecismo e ler, um por um, os Mandamentos, para ver se os cumprimos ou não.
Lutero ensina que pecamos em pensamentos, palavras e ações. Você não matou ninguém, é claro, mas teve vontade de fazê-lo? Matou em pensamentos, com palavras? Os nossos irmãos católico-romanos ainda acrescentam a palavra ‘omissão’. Você não matou, mas o que fez para salvar uma vida? Você não roubou, mas o que fez para proteger o seu irmão do roubo?
Sim, os Dez Mandamentos são um precioso auxílio para revisar as nossas vidas e para voltarmos a viver bem com Deus e com o próximo.
Para refletir, leia, Deuteronômio 5.6-21
Garantias de dignidade humana e presença do Senhor
Os Dez Mandamentos são a máxima da aliança feita por Deus com o seu povo após a libertação e saída do Egito. Martim Lutero inicia os seus Catecismos com abordagens sobre os Dez Mandamentos e os definiu, no final das suas explicações no Catecismo Maior, como o maior dos tesouros que Deus nos deu. Eles falam sobre o amor a Deus e o respeito ao próximo e assim foram retratados por Jesus (Mc 12.28-31). Ao Senhor, devemos a nossa vida, adoração, tempo e louvor. Ao próximo, devemos o nosso respeito, cuidado, compromisso, honestidade, verdade e retidão. No hebraico, os Dez Mandamentos são chamados de as dez palavras. Dessa conotação, nos chega o termo decálogo, advindo do grego.
Os Dez Mandamentos, escritos por Deus em dois blocos de pedra, foram entregues a Moisés no Monte Sinai. Três meses já tinham se passado desde a saída do Egito, da escravidão, do sofrimento. Pela primeira vez, o povo estava livre e necessitava manter essa liberdade dada pelo Senhor. Moisés recebeu as dez palavras junto com a promessa de que as pessoas lideradas por ele desde o Egito seriam propriedade de Deus, reino de sacerdotes, nação santa (Ex 19.4-6).
Martim Lutero, no Catecismo Maior, destaca como ótima entendedora da Escritura aquela pessoa que compreende bem os Dez Mandamentos. Entender a palavra de Deus, no deserto do Sinai, era entender a Sua vontade para a vida no cotidiano. Ser povo que tem apenas um Senhor,a saber, o seu Deus, não é ser povo dominado por outro, também não é ser povo que domina os seus. Compreender a liberdade contida na aliança proposta por Deus é também compreender a responsabilidade de ser elo entre o Senhor e o seu mundo: ser santo.
Quem compreende a palavra enxerga também santidade no próximo, sendo então capaz de amar o seu semelhante. Os Dez Mandamentos são mais do que leis, são garantias de dignidade humana e da presença do Senhor. O povo de Deus deve formar uma sociedade sem espaço para a escravidão, seja ela imposta por outros deuses ou por outras pessoas. Para um povo liberto, eram necessários princípios que orientavam uma nova compreensão e prática de convivência.
Lutero também definiu os Dez Mandamentos como modelos para a vida, de modo que esta agrade a Deus. Se hoje somos povo do Senhor, se somos libertos pela sua graça, devemos saber de onde vem essa dádiva e para quem deve ser oferecida. Liberdade vem de Deus e deve ser dada ao próximo em forma de respeito, amor, compaixão e dignidade.
Para refletir, leia Êxodo 19.1-8b