P. Dr. Lothar Carlos Hoch,
formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, com Doutorado pela Philipps Universität Marburg, na Alemanha, foi Professor e Reitor da Faculdades EST
Confissão de pecados
Na sociedade atual, as pessoas estão cada vez mais orientadas ‘para fora’, para o que os outros fazem, curtem e vestem. A vida interior, com angústias, sentimentos de culpa e relacionamentos frustrados, está sendo negligenciada ou escondida. Nesse sentido, a confi ssão de pecados é um dos mais importantes pilares teológicos da liturgia da Igreja. É expressão da consciência da nossa incompletude e resulta de uma atitude de introspecção, autocrítica e tentativa humilde de fazer uma revisão da vida.
Existem três formas de confissão de pecados:
– gesto individual: é o ato de se colocar, com honestidade, diante da face de Deus para, de forma humilde, lhe pedir perdão por um ou mais atos dos quais a pessoa se arrepende sinceramente;
– ato de procurar uma pessoa a quem magoamos: em uma atitude sincera e arrependida, devemos admitir o erro e lhe pedir perdão;
– ato litúrgico celebrado durante o culto: toda a Comunidade de fé traz diante de Deus tanto os pecados individuais quanto os coletivos, aqueles que não atingem apenas uma pessoa, mas toda a sociedade.
As Sagradas Escrituras fazem muitas referências à confissão de pecados. Chama atenção a beleza da linguagem bíblica quando o texto do Evangelho de Lucas, ao se referir ao filho pródigo, diz que, em um determinado momento da sua crise, quando teve que ‘fartar-se com o que os porcos comiam’, ele caiu em si (v.17).
Este ‘cair em si’, que resulta da introspecção e da autocrítica, é o embrião de uma ‘culpa sadia’ e acontece quando uma crise ou uma angústia atinge, dentro de nós, um determinado grau de profundidade. ‘Culpa sadia’ é o preço que se paga para crescer em direção à modéstia, à humildade pessoal e à tolerância em relação à fraqueza e às imperfeições dos outros.
No final da Idade Média, havia uma prática pastoral amplamente disseminada para ajudar as pessoas a lidarem com a culpa: todos os monges tinham o seu confessor e conselheiro. O confessor de Lutero se chamava Johannes Staupitz . Com ele, Lutero aprendeu que, para lidar com a culpa, três passos são necessários e importantes.
O primeiro passo é a contritio cordis, a contrição do coração. Se não houver consciência de culpa, não pode haver arrependimento. O segundo passo é a confessio oris, a confissão oral, que consiste em abrir o coração, articular com a boca a culpa sentida e, ao fazê-lo, deixar que as emoções fluam livremente. O terceiro passo é a satisfactio operis, a reparação, ou seja, procurar a pessoa a quem se prejudicou, assumir perante esta o erro e, se possível, repará-lo.
A história do filho pródigo ilustra este gesto: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho (Lc 15.18ss). O pai, cheio de amor e misericórdia, manda preparar um cordeiro cevado e convida os amigos para uma grande festa. Assim é grande a alegria nos céus quando uma pessoa que comete pecado se arrepende, confessa o erro e busca a reconciliação!
Para refletir, leia Lucas 15.18ss

P. Ms. Carlos Heinz Eberle,
formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, com Mestrado em Teologia Prática pela FTSA, em Londrina/PR. Atua na Comunidade em Canoas/RS
Absolvição dos pecados
Trago na memória a história de uma senhora idosa que acompanhei, já faz muitos anos. Ela sofria de uma doença degenerativa que afetava diretamente os músculos, os tornando rígidos. Com o tempo e cada vez menos mobilidade, passou os últimos três anos de vida deitada em uma cama, completamente dependente do marido e dos filhos. Também os músculos do pescoço foram perdendo a função, por isso ela engolia com dificuldade e terminou por perder totalmente a fala.
Cada vez que a visitava, tinha diante de mim um grande desafio: como me comunicar com ela, ainda mais quando via os seus olhos cheios de angústia e medo? Como aliviar a sua dor e o seu choro constantes ficando apenas em silêncio? Certo dia, consegui combinar com ela que me responderia ‘sim’ com um leve aperto da mão que eu segurava. Em uma das últimas visitas, perguntei se ela tinha algo para confessar e senti o seu corajoso aperto na minha mão. Perguntei diversas coisas, até chegar ao tema de um possível adultério. Novamente, senti o aperto na mão. Perguntei ainda se ela desejava o perdão do seu marido. A resposta foi positiva.
Em outra ocasião, falei sobre o assunto com o marido dela no meu escritório. Para a minha surpresa, ele disse que já sabia do adultério por meio de outras pessoas, mas o casal nunca tivera coragem para falar a respeito do episódio. O marido também disse que já a havia perdoado, razão pela qual conseguia cuidar dela com tanta dedicação.
Assim que pude, fui levar esta boa notícia para a senhora: ‘O seu marido já lhe perdoou pelo que você fez e, certamente, Jesus Cristo também lhe perdoa’. Em questão de uma semana, ela faleceu. Quando fui fazer o sepultamento e a vi no caixão, tive uma surpresa: parecia outra pessoa, pois o seu rosto tinha um semblante de profunda paz e serenidade.
Esta história me faz pensar o quanto o perdão e a absolvição são importantes. O nosso orgulho, muitas vezes, nos impede de reconhecermos os nossos erros e, por causa disso, podemos perder muito. Por outro lado, a humildade favorece a nossa confissão.
É igualmente importante lembrarmos que, sem confissão, não existe absolvição. Como muito bem traz 1João 1.9: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purifi car de toda injustiça.
A absolvição de Deus não apenas nos liberta e alivia do fardo dos pecados, mas, por sua graça e misericórdia, ainda é capaz de nos restaurar dos danos causados pelo pecado. Na justiça dos seres humanos, uma confissão normalmente conduz para a condenação. Na justiça de Deus, por causa de Jesus, a confissão é caminho para absolvição e salvação.
Desta forma, mesmo que continuemos pecadores, por gratidão ao perdão e à absolvição de Deus, a nossa vontade deveria ser de segui-lo bem de perto, para servir a Ele e ao próximo sempre com alegria e amor.
Para refletir, leia 1João 1.5-10