P. em. Günter Karl Fritz Wehrmann, formado no Missionsseminar em Hermannsburg, na Alemanha, nas Paróquias gaúchas de Sapiranga e Canela, além da Paróquia de Pomerode/SC, foi Professor de Teologia Aplicada na EST, em São Leopoldo/RS, Assessor Teológico na Região IV, Assessor Teológico da Presidência da IECLB e Secretário das Relações com a América Latina na Obra Missionária Evangélica Luterana (OMEL), em Hermannsburg
A importância da repetição dos eventos litúrgicos
Entendemos liturgia como serviço divino, no sentido vertical e horizontal. Ele se expressa no culto, na diaconia, na vida comunitária, bem como no todo do Ano Litúrgico que também é denominado Ano Eclesiástico ou simplesmente Ano da Igreja.
O Ano Litúrgico abarca os seguintes eventos e épocas:
– Advento (tempo de espera e preparação);
– Natal (nascimento de Jesus, encarnação de Deus);
– Epifania (manifestação da glória do Deus encarnado em Cristo);
– Quaresma (tempo em que acompanhamos Jesus no seu caminho para a morte na cruz);
– Páscoa (a ressurreição de Jesus Cristo e as suas revelações até a sua ascensão);
– Pentecostes (o Cristo ressurreto, assunto ao céu, torna-se presente pelo Espírito Santo que cria, mantém e conduz a sua Igreja à consumação e criará novos céus e nova terra nos quais habita justiça);
– os domingos após Pentecostes, ou seja, o tempo comum do Ano Litúrgico, e os últimos três domingos do Ano Litúrgico, que tratam do fim dos tempos
e da consumação dos séculos.
O Ano Litúrgico, portanto, rememora e, simultaneamente, antecipa toda a história da salvação, ou seja, toda a história do Deus apaixonado por nós. Eis o mistério da anamnese, do ‘memorial’ que reatualiza e antecipa os eventos da salvação. Ela ‘re-presenta’ (torna presente) o nosso Deus Salvador e Libertador, que se manifestou no passado, que se manifestará no futuro e que hoje se torna presente de forma concreta e palpável como no pão e no fruto da videira e na água batismal. Esse memorial do Ano Litúrgico nos alimenta na esperança que não morre, mas conduz para a vida eterna e, hoje, já nos anima para vivermos como testemunhas dos grandes feitos de Deus.
É por isso que sentimos necessidade e vontade de relembrar, rememorar e antecipar essa história de amor (a exemplo de Maria, que guardava, ou seja, ‘ruminava’ as palavras do anjo da anunciação do Natal). Desse modo, celebramos anualmente, de maneira renovada e repetida, em cada novo contexto, as maravilhas que o nosso Deus libertador e salvador nos tem preparado, está preparando e ainda vai preparar – até o fim bem-aventurado.
Repetição litúrgica do Ano da Igreja, portanto, não é chatice nem falta de criatividade (assim como também celebrar o Dia de Aniversário, de Batismo, de Casamento também não o são!). Muito pelo contrário, é o mistério da celebração da vida que Deus já deu aos seus no passado, está preparando para eles com vistas àquele dia no futuro e lhes permite reatualizar e antecipar, hoje, pela fé, na ‘comunhão dos santos’. O mistério da anamnese é reatualizar bem como antecipar o que Deus tem feito, vai fazer e está nos possibilitando experimentar pela fé, de forma renovada e criativa, como se a cada novo ano fosse a primeira vez.
Para refletir, leia o Salmo 103.1-5

P. Nelson Kilpp, Formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, com Doutorado em Marburg, na Alemanha, exerceu o Ministério Pastoral em Chapecó/SC, foi docente na EST e fez intercâmbio em Kassel, na Alemanha. Atua como Pastor voluntário em Salvador/BA
Ano Eclesiástico como expressão ecumênica
Ao lado do ano civil, as Igrejas cristãs orientam- se por um Ano Litúrgico ou Eclesiástico, que relembra acontecimentos em torno de Jesus e eventos importantes para a fé cristã. O Ano Litúrgico é muito antigo. Já na época dos apóstolos, celebrava-se o primeiro dia da semana, o dia da ressurreição de Jesus, como o dia do Senhor (domingo). Nesse dia, as Comunidades se reuniam para lembrar os ensinamentos de Jesus e celebrar a Eucaristia.
Em torno da Páscoa, surge, já no século IV, um ciclo festivo, que compreende as semanas antes e depois dessa que é a festa mais importante da cristandade. O período após a Páscoa, marcado pela alegria, lembra os 40 dias que o ressurreto passou na companhia dos discípulos antes de subir ao céu (Ascensão). O período encerra 50 dias após a Páscoa, com o Pentecostes, a festa do Espírito Santo. De modo análogo, os 40 dias antes da Páscoa (Quaresma) tornaram-se um período de preparação que culminava na Semana Santa.
Mais tarde, estabeleceu-se o Ciclo do Natal, data- do no solstício de Inverno do hemisfério Norte (25 de dezembro), quando o sol retoma de novo a sua força. O Natal é a confi ssão de que Jesus é a verdadeira luz, que vence as trevas da morte. O ciclo natalino compõe-se de uma época de preparação (Advento), que inicia com o quarto domingo antes do Natal, e de um período posterior, de 13 dias, que culmina no dia 6 de janeiro, o dia em que Jesus se manifesta ao mundo (Epifania), simbolizado pelos reis magos.
Esse calendário, composto pelos dois ciclos mencionados e por um tempo comum não festivo entre os mesmos, é aceito por todas as Igrejas do Ocidente e quase todas do Oriente. Provavelmente, é o mais importante símbolo de unidade da cristandade mundial.

As Igrejas do Ocidente também têm outro elemento em comum: um lecionário para os domingos e dias festivos de todo o ano litúrgico. Um lecionário é uma lista de textos bíblicos para leitura e pregação nos cultos e missas comunitárias. Após a renovação litúrgica na Igreja Católica, que introduziu um novo lecionário, as Igrejas protestantes de fala inglesa iniciaram um processo de adequação do lecionário católico às tradições protestantes, o que resultou no Lecionário Comum Revisado, de 1992, que encontrou acolhida em Igrejas do mundo inteiro, não somente nas de fala inglesa.
Também as Igrejas protestantes históricas no Brasil adotaram, além de católicos e anglicanos, este Lecionário Comum. Dessa forma, as Igrejas dão testemunho público conjunto do Evangelho. Tanto as pessoas que visitam uma missa católica quanto as que vão a um culto protestante ouvirão, no mesmo domingo, o mesmo texto do Evangelho.
A observância do Ano Litúrgico com os seus símbolos, as suas cores e os seus textos não só nos possibilita firmar uma identidade litúrgica, mas também perceber claramente que fazemos parte de uma comunhão maior. Isso é uma expressão concreta de que, em Cristo, todos somos um!
Para refletir, leia o Salmo 100.1-5