Em um ano no qual estamos comemorando a Reforma da Igreja, gostaria de refletir, como Linguista, sobre a importância que foi a tradução da Bíblia para a Língua Alemã, para a língua do povo, para a língua materna.
Estudiosos apontam que a Língua é muito mais do que simplesmente ler textos, repetir palavras, frases e cantos sem entender o significado. Língua é identidade, é a morada do ser, é um comportamento social ligado à vida, à cultura e à história de um povo. A Língua não é algo que os seres humanos têm, mas algo que os seres humanos são.
Na história do povo de Deus, a tradução da Bíblia era uma prática. Como exemplo, pode ser citada a tradução do Velho Testamento para o Grego. No entanto, no decorrer da história, a Igreja Católica usava quase exclusivamente o Latim. Daí decorre um expressivo problema, pois, como o povo não falava nem entendia Latim, a compreensão dependia da interpretação do Clero.
Costumo pedir aos meus alunos e às minhas alunas que imaginem uma situação em que teriam que fazer uma oração em outra língua que não fosse a materna. O que você sentiria? Qual seria o seu envolvimento naquela situação? Ora, a Língua é um poderoso traço de identificação de um povo, mas, além disso, ela é sentimento, é identidade, é vida. Como as pessoas comuns poderiam se sentir pertencentes ao povo de Deus se aquela Língua que elas rezavam era algo estranho à sua vida?
Sabemos que Lutero defendia a Bíblia como única regra de fé para a vivência das pessoas cristãs, mas havia um problema, porque, se ela estava acessível quase que somente em Latim ou em suas línguas originais, como isso poderia ser resolvido? A solução foi traduzir a Bíblia para a Língua Alemã!
O que Lutero fez não foi somente colocar a Bíblia ao alcance do povo. Ao traduzi-la para a Língua materna, ele transportou os ensinamentos sagrados para o ser das pessoas, para a vida dela. Ao fazer isso, o lugar de pertencimento àquilo que a língua traz, aflora. Com ela, vem a vitalização de saberes, de conhecimento do sagrado, de vida, de simbologia identitária e a espiritualidade encontra um espaço muito fértil para se potencializar.
É por isso que podemos dizer que a Reforma, no século XVI, além de ser um movimento social e político, foi um movimento de fortalecimento espiritual dos princípios do Evangelho, pois o que ocorria naquela situação era uma apropriação da Bíblia à vida, ao ser das pessoas.
A leitura da Bíblia na Língua Alemã começa a se tornar, assim, um símbolo importante de luta pela vida e por histórias compartilhadas de identidade e de pertencimento a um povo: o povo de Deus.
A fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17).