No ano de 2001, ao trabalhar pela primeira vez com uma turma, afirmei que iria tratar sobre a pluralidade linguística brasileira. Mesmo morando em um Estado com mais de 40 línguas indígenas, fora a dos imigrantes, nos anos anteriores àquela afirmação, eu não percebia a pluralidade linguística local.
Ainda hoje, quando questiono, em sala de aula, quantas línguas são faladas no Brasil, apesar de todo o acesso às informações que há, a grande maioria dos estudantes diz ‘apenas o Português’. Claro que o momento se transforma em desconstrução dessa ideia.
A percepção que o Brasil seja monolíngue começa a partir da chegada dos portugueses. Além de escravizar e matar os nativos, proibiram o uso da língua materna deles e impuseram a língua do colonizador. Essas atrocidades implicaram na extinção de muitas etnias e suas línguas.
Já em 1502, inicia-se o tráfico de escravos. Nos mais de três séculos de escravidão, a estimativa é de que em torno de 200 a 300 línguas foram envolvidas e o tratamento dado a elas era o mesmo que recebiam as dos povos indígenas.
No século XIX, com as campanhas migratórias do governo, chegam imigrantes, como o Polonês, o Alemão, o Italiano, o Japonês, o Coreano, o Árabe, o Chinês etc. Esses sofrerem muito durante o Governo de Getúlio Vargas. Naquele momento, houve a proibição de falar e de utilizar materiais na língua materna, com destaque para a dos italianos e dos alemães.
Esse aniquilamento de povos e línguas resultou que, das mais de 1300 línguas que havia no país em 1500, conforme aponta o Linguista Rodrigues, hoje se fala no Brasil em torno de 200 línguas, sendo 180 indígenas e 20 estrangeiras.
Vejam, portanto, como, desde a colonização, o poder instituído fez o trabalho de negar a pluralidade linguística do país, atribuindo à Língua Portuguesa uma superioridade em relação às outras. Esse pensamento colonial hegemônico ainda está presente no nosso imaginário, afinal ‘no Brasil, se fala apenas o português’.
Mesmo com a extinção da maioria das línguas, aqui ainda há uma expressiva pluralidade linguística. São, pelo menos, 200 línguas faladas diariamente e outras estão chegando, a exemplo da Língua Crioula, dos haitianos.
O Brasil é, portanto, multilíngue, multicultural e multiétnico. Isso deveria nos orgulhar e permitir encontros de humanidades! Ir ao encontro das pessoas e reconhecer a sua língua como importante é valorizarmos a sua identidade, a sua vida, a sua história, o seu eu. Essa é uma atitude cristã.