Nos encontros de jovens, realizados à noite ele ficava de plantão, cuidando para que a moçada não cometesse deslizes. Com uma lanterna na mão, fazia o papel de um ‘policial da moral’. Parece que nunca pegou alguém em flagrante, a não ser a si mesmo, tempos depois, quando descobriram que tinha um caso fora do casamento.
Se os que o conheciam há muito tempo não fossem moralistas como ele, teriam visto naquela obsessão um caminho perigoso a ser evitado. Faltoulhe a ética como viabilidade da moral. Sem a ética, a moral nos faz sucumbir.
O outro
lado da
corrupção é
a hipocrisia |
Parece que vivemos em um país com uma multidão de moralistas à espreita de alguém que se perca para, então, dizer de si o quanto é bom. No cotidiano dos mortais, isto é muito comum, mas preferese a visibilidade de atos maldosos de um colega da política. Quando alguém é acusado por corrupção, os corruptos invisíveis vêm a público esconder a sua pilantragem acusando os outros.
Com este jeito moralista de tratar a corrupção, os corruptos e os corruptores, as nossas esperanças de espaços públicos éticos não se tornarão realidade tão cedo.
Aliás, a força da corrupção se torna gigantesca quando perdemos a esperança. Logo, o início da corrupção está na falta de sonhos de uma sociedade justa e fraterna. Antes de colocar a mão no dinheiro público, o corrupto, o corruptor e o que silencia diante dos dois, já abriram mão do compromisso com um mundo ético.
O outro lado da corrupção é a hipocrisia. Ninguém melhor do que Jesus para falar sobre o assunto. Jesus não conhecia outras religiões, a não ser a falsa religiosidade do seu tempo. Dizia ele às pessoas extremamente religiosas do seu tempo: Ai de vós, hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia (Mateus 23).
No tempo de Jesus, os fariseus se orgulhavam de si e da sua religiosidade. O publicano, por sua vez, nem ousava olhar para o céu. Confessava-se pecador e pedia piedade de Deus. Este desceu justificado (Lucas 18.9-14). Os fariseus eram moralistas. Os publicanos, éticos.
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se engrandece será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será engrandecido (Lucas 18.14).