Coisas de criança! Criança do mundo rural, que via nas surpresas do Papai Noel presentes simples e sempre iguais a cada ano: Papai Noel de bolacha de mel, pirulitos da ‘venda’ e doces feitos em casa pela mãe e pela avó. Um mundo simples, de sonho e fé!
No centro da vila, aonde íamos após o culto da véspera do Natal, com Igreja cheia, a situação era diferente. O Papai Noel, ‘ao vivo’, trazia presentes com os quais sonhávamos, como bicicletas, bolas, chocolates, sapatos e roupas da moda. No entanto, não eram para nós. Ainda não sabíamos que o Papai Noel trazia presentes segundo os bolsos dos pais.
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Glória a Deus nas alturas |
Decepcionados com as distinções sociais do Papai Noel, naquele ano resolvemos impedir a sua chegada. Os mais velhos lideraram os mais novos para cercaram o armazém do ‘seu Becker’, pois, lá dentro, um adulto estava se vestindo com roupas vermelhas e barbas brancas. Vimos pelas frestas e decidimos ficar na porta e não deixar o Papai Noel sair. Foi o que aconteceu. Sequestramos o Papai Noel e a festa dos amigos deve ter sido protelada. Ali ficamos até a madrugada.
Olhando para aquele tempo, não sei explicar o comportamento do nosso grupo, formado por filhos de Agricultores. Inveja? Ressentimento? Frustração? Talvez tudo isso e criancice! Pode ter sido aquele ato involuntário o primeiro movimento de contestação infantil de um grupo diante das desigualdades da vida, sem explicação para nós. Fiz parte desta travessura marcante.
O Papai Noel continua a despertar sonhos nas crianças… pobres, ricas ou de classe média. Também as desigualdades continuam a fabricar sonhos desiguais. Papai Noel discrimina os pobres, gerando frustrações e, talvez, violências nascidas do ressentimento quando as pessoas são medidas e glorificadas por suas posses.
Será que o bom velhinho não precisa ser sequestrado novamente? Enquanto o velho de barbas brancas continuar ocupando o lugar de Jesus, aquela travessura de crianças continuará a relembrar o sentido do Natal de Jesus, em que não há lugar para a glória dos homens e das mulheres, que cria desigualdades sociais, lamas sobre a cidade que leva o nome de Maria, Mariana, a mãe de Jesus, e atentados como o de Paris.
Só quando a glória, que acalenta o poder e os poderosos, se dirigir para o Deus nas alturas, a paz será possível na terra e teremos animais limpos de lamas para o presépio de Jesus.