A menina de 12 anos passou a ter visões e a falar sobre assuntos estranhos. A sua mãe adotiva não sabia o que fazer. Apelou para o Padre e também para alguns Pastores das novas Igrejas evangélicas, que veem espíritos demoníacos onde eles não estão.
No dia da visita, o Padre conversou longamente com a mãe sobre o comportamento da menina. O pai estava no trabalho. Tudo havia começado quando a menina passou um fim de semana na casa da mãe biológica, que vivia com um homem. A menina contou que o marido da sua mãe havia tentado estuprá-la no banheiro por duas vezes, mas ela tinha conseguido se esquivar. Entretanto, a menina estava traumatizada e não conseguia falar sobre o episódio. O Padre pediu que a menina contasse o ocorrido para todos, a começar pela família, o que, de fato, aconteceu já naquele dia… e o ‘mau espírito’ desapareceu sem exorcismo. A mãe biológica e o marido abusador foram presos em poucos dias.
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8 de março, Dia Internacional da Mulher |
Enquanto ocorria o encontro, chegaram os Pastores para exorcizá-la dos maus espíritos. Quando viram o Padre, disseram que voltariam em outro dia. Podemos imaginar a mesma situação nas mãos daqueles Pastores. Certamente, a menina seria considerada possuída por um espírito mau
e o assunto da tentativa de violência sexual talvez não tivesse aparecido. À dor da violência, que são seria revelada em razão da vergonha, seria somado o exorcismo, uma falsa solução. Enquanto isso, o responsável estaria abusando de outras meninas.
Esta história, contada pelo Padre José em uma aula do Mestrado Profissional da Faculdades EST, pode servir de alerta para os responsáveis pelo cuidado de crianças e jovens. É preciso mostrar ter ouvidos para que eles falem a respeito das suas dores.
A incidência de violência sexual contra crianças e mulheres por parte de pais, padrastos, maridos e namorados é bem maior do que se imagina. Podemos aproveitar a data de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, para celebrar a luta das mulheres por dignidade e denunciar os abusos sexuais.
É pelo compartilhar das dores das pessoas violentadas que começa o caminho da dignidade. Jesus sabia disto quando se deparava com as pessoas tomadas por maus espíritos. Ele não só pedia que falassem em público, mas chamava de hipócritas lideranças religiosas da sua época, que coavam mosquito, mas engoliam camelo (Mateus 23.24).