O sofrimento justifica tirar a própria vida?
Pa. Aline Danielle Stüewer, formada em Teologia pelas Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Atua na Paróquia de Caçador/SC
Quando uma pessoa passa por um momento de sofrimento, pode surgir a pergunta pelo sentido da vida: Não sei se vale a pena viver, Nem sei por que ainda estou vivo. Nós não somos fruto do acaso. Nós somos filhos e filhas de Deus. Ele fez questão de nos criar à sua imagem e semelhança. Nós fomos sonhados por Deus. É isto que deve dar sentido para a nossa vida.
Como criaturas de Deus, fomos destinados a viver uma vida plena e feliz (Jo 10.10). As circunstâncias da vida, entretanto, levam pessoas a perderem o sentido da vida, fazendo com que elas desistam, inclusive, de viver.
Quando recebemos a notícia de que uma pessoa conhecida cometeu suicídio, logo nos sobrevém a pergunta: O que leva uma pessoa a tirar a própria vida? Há uma série de fatores que podem levar uma pessoa a cometer suicídio. O que leva uma pessoa a cometer suicídio é algo extremamente complexo. Certo é que a vida para esta pessoa se tornou simplesmente insuportável. Ela não quer morrer, mas não quer continuar vivendo do jeito que as coisas estão e não vê outra saída.
Como pessoas cristãs, buscamos não julgar a pessoa que tomou esta decisão. Entretanto, não podemos deixar de dizer que não é da vontade de Deus que tiremos a nossa própria vida. A vida é um bem sagrado, por isso Deus fez questão de nos dar o quinto mandamento: ´Não matarás´ (Êxodo 20). Não temos o direito de colocar a vida de outras pessoas em risco nem mesmo a nossa própria.
A pessoa que comete o ato do suicídio não enxerga mais um fim para o seu sofrimento. Para ela, a vida não passa de sofrimentos e desilusões. Viver se tornou um castigo. Ninguém está livre de passar por circunstâncias de grandes dificuldades. Também Jesus passou por momentos de grande sofrimento, como quando orou no Getsêmani Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice. Também Jesus teve medo de não suportar tanto sofrimento. Mesmo assim, Ele continuou a sua oração, dizendo Contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres. Com estas palavras, Jesus expressou a sua confiança e a sua entrega a Deus. Ainda que ninguém queira beber de um ´cálice amargo´, não há como ficar imune ou alheio ao sofrimento inerente ao que faz parte da vida neste mundo.
Cremos, entretanto, que não precisamos passar por estes momentos sozinhos, mas que Deus se coloca ao nosso lado para nos dar força e coragem para a caminhada. Deus restaura em nós a fé e a esperança de que, depois da tempestade, há um arco-íris. Depois do choro, vem a alegria (Salmo 30). Em Jesus, podemos enxergar uma saída. Nele, somos chamados a viver, mesmo que nem sempre seja fácil, e temos a chance de recomeçar todos os dias. Ainda que, no caminho, encontremos muitas pedras, Deus nos dá forças para levantar e continuar caminhando.
Para refletir, leia Mateus 11.28-30
Há perdão para os suicidas?
P. Daniel Kreidlow, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Atua na Paróquia de Parobé/RS
Diferentemente de outros animais, nós, seres humanos, temos a nossa vida como algo do qual podemos nos desfazer.
Como seres que possuem a arte de pensar sobre si mesmos e sobre a sua própria vida, nós temos a liberdade de desprezá-la, destruí-la ou de acolhê-la, aceitá-la.
Com esta liberdade atribuída a nós, humanos, foi-nos dado um poder incomparável, do qual, muitas vezes, abusamos.
O suicídio é um tema que nos causa espanto. Logo pensamos no motivo para alguém que recebeu a vida de Deus querer terminar com ela por qualquer motivo que seja.
Normalmente, somos rápidos em julgar a pessoa, mas será que realmente sabemos o que passou em seu coração e temos levado tudo em conta ao fazermos tal julgamento?
Não quero ser rápido demais em simplificar e responder sobre este tema, pois, como Pastor, já sepultei pessoas que decidiram dar fim à sua própria vida.
Posso dizer que não é fácil para ninguém. A família fica se perguntando onde falhou e a razão de não ter percebido o problema e, consequentemente, impedido esse fim trágico.
A grande maioria das pessoas estigmatiza quem comete o suicídio como fraco e incapaz de lidar com os seus próprios problemas e todos ficam no aguardo do que o Pastor vai dizer e fazer neste caso tão diferente do aceitável como natural.
Para onde vão os suicidas? Há perdão para eles? Difícil responder, pois não sei o que passou no coração e na mente da pessoa suicida e sei que Deus é amore, ao mesmo tempo, é juiz. É de aceitação quase que universal que Deus, o Criador e Senhor da vida, reservou o direito sobre o fim da vida para si porque só Ele sabe a que meta quer conduzi-la.
Acredito em um Deus que defende o direito à vida para qualquer pessoa que está farta de viver uma vida sem sentido, sem alegria, com sofrimento e dor insuportáveis.
Acredito em um Deus que é Senhor da vida e deseja a toda pessoa por Ele criada uma vida abundante (Jo 10.10), por isso não possuímos o direito de tirá-la arbitrariamente.
Embora a Bíblia, em parte alguma, nos proíba expressamente o suicídio, em contrapartida, ela sempre enfatiza o valor da vida e o imperativo de lutarmos por ela, não só para nós, mas para todos ao nosso redor.
Apesar de não sabermos ao certo o fim que Deus dará à pessoa que cometeu suicídio, acredito que podemos sempre e de modo renovado nos apegarmos ao seu amor e graça.
Se é por Ele que somos carregados e perdoados nesta vida que pode nos fazer passar por muito sofrimento, será que Deus também não poderá carregar e perdoar nesta mesma graça e amor quem desesperadamente não suportou mais o viver?
Para refletir, leia João 10.1-10